sábado, 1 de outubro de 2016

Do divino ao profano: evangélicos fazem campanha para Prefeituras no Brasil


Nas duas maiores cidades brasileiras, há candidatos com grandes chances de chegar à Prefeitura ligados às igrejas evangélicas, um reflexo da força que esse grupo conservador adquiriu à medida que a esquerda retrocede.

No Rio de Janeiro, o senador e bispo Marcelo Crivella, do Partido Republicano Brasileiro (PRB), considerado o representante político da Igreja Universal do Reino de Deus, lidera as pesquisas de intenção de voto para as eleições municipais deste domingo (2).

Fundada em 1977 pelo polêmico bispo Edir Macedo, que também é dono da Rede Record - a segunda emissora de televisão do Brasil -, a Universal é uma das instituições religiosas que mais elege candidatos junto com a Assembleia de Deus, outra popular igreja evangélica.

Em São Paulo, o deputado Celso Russomanno figura em segundo lugar, tendo a chace de disputar o segundo turno em 30 de outubro. Em 2012, já havia se candidatado para a Prefeitura, mas Fernando Haddad, do PT, venceu a disputa.

Ainda que seja católico e quando criança tenha sido coroinha, Russomanno também é do PRB, que está muito concentrado em ampliar sua participação na Câmara dos Vereadores, que elege seus membros neste domingo.

"É uma consequência do crescimento dos evangélicos no Brasil, que leva a uma maior representação política. No Congresso, por exemplo, a bancada evangélica é uma das que mais crescem", disse à AFP o sociólogo Mauro Paulino, diretor do instituto de pesquisa Datafolha.

"Isso também se relaciona com um momento mais conservador no país e com uma onda de rejeição à política tradicional. Um terço dos eleitores brasileiros declara não ter simpatia por nenhum partido político, um recorde no período democrático", acrescenta.

'Cidadãos evangélicos'

"Estou conquistando votos e almas para você", escreveu uma partidária na página do Facebook de Crivella, que tem quase dois milhões de apoiadores.

"Graças a Deus vamos tê-lo como prefeito", escreveu outra.

O PRB elegeu 54 prefeitos nas primeiras eleições municipais de que participou, em 2008. Quatro anos mais tarde, elegeu 78 e, para as deste ano, leva 434 candidatos, segundo o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

"Mas, nosso foco é, sobretudo, a eleição de vereadores. Hoje é sabido que o segmento da população evangélica é grande, e podemos ter mais representação", explica à AFP o deputado do PRB e pastor João Campos de Araújo, líder da bancada evangélica do Congresso em Brasília.

"E isso é bom porque teremos nosso pessoal para debater grandes temas nacionais como, por exemplo, o aborto, a defesa da vida e da família tradicional", acrescenta.

"Somos evangélicos, mas também somos cidadãos", afirma.

A poderosa bancada evangélica do Congresso Nacional apoiou em massa o da presidente Dilma Rousseff em abril passado, quando o processo passou pela Câmara.

Ao abrir a sessão, o então presidente da Câmara dos Deputados e também evangélico, Eduardo Cunha, hoje destituído por casos de corrupção, declarou: "Que Deus tenha misericórdia dessa nação".

No Brasil, há 123,3 milhões de católicos, 64% de sua população, de acordo com o censo de 2010, contra 91,8% em 1970. Mas, ao contrário dos católicos, os evangélicos, que aumentaram seu número, representam 22% com 42,3 milhões de pessoas.

Uma pesquisa feita pela revista Veja assinala que, nas capitais dos estados brasileiros, 250 candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador incluem em seu material de propaganda um dado fundamental: a posição hierárquica em suas igrejas evangélicas, como bispos, pastores, ou missionários, entre outros.

Uns sobem, outros descem

Segundo as pesquisas, tanto Russomanno como Crivella têm maior apoio entre os eleitores de menor escolaridade e renda, algo simples de entender se considerar a constante presença dessas igrejas nas ruas das periferias e das favelas brasileiras, onde muitas vezes a política tradicional e o Estado estão ausentes.

Já o PT elegeu 635 e 558 vereadores nas últimas duas eleições municipais, mostrando que perdeu força nesses anos, em que foi atingido por escândalos de corrupção e pelo julgamento político que acabou, em agosto, com seu quarto governo consecutivo.

"Há mais consciência do voto entre os eleitores, que já não querem que pessoas desonestas continuem ocupando espaços importantes", comenta o deputado João Campos de Araújo.

De qualquer maneira, a corrupção e os problemas com a Justiça são endêmicos no país e aparecem em todas as esferas políticas. Tanto Crivella quanto Russomanno têm suas próprias polêmicas judiciais e, no Congresso, a situação é similar.

"Há um cansaço e uma crise de representação em geral, mas o retrocesso do PT leva os eleitores a buscar alternativas", assinala Paulino.

Fonte: AFP
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