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    18 fevereiro 2016

    Líder do PMDB é sócio de dono de cervejaria que financiou campanha de Dilma


    A família Picciani e Walter Faria, da Itaipava, têm juntos pedreira comprada de um morto e avaliada em R$ 70 milhões

    Nas eleições de 2014, o Grupo Petrópolis, fabricante da cerveja Itaipava, se firmou como um grande doador de campanhas, destinando R$ 57,2 milhões a partidos e candidatos. Metade foi para a campanha da presidente Dilma Rousseff e para o PMDB do Rio de Janeiro. O partido fluminense ganhou R$ 11 milhões, e Dilma, R$ 17,5 milhões, a quarta maior contribuição recebida pela candidata petista.
    Desde 2011, o PMDB fluminense está sob o comando do presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani. É pai de Leonardo Picciani, que se tornou líder do PMDB na Câmara e, em dezembro, já foi destituído e reconduzido ao cargo. Nos últimos meses, os deputados Picciani lançaram uma boia de salvação para Dilma no processo deimpeachment, articulando uma base de apoio à presidente no PMDB. Foram recompensados com dois ministérios e prestígio junto a presidente.

    Além de políticos influentes, os Picciani são empresários em ascensão. Em abril, ÉPOCA revelou que a família possui umapedreira no Rio de Janeiro – a Tamoio Mineração S.A. – avaliada em R$ 70 milhões. A reportagem mostrou que, em setembro de 2012, os Picciani compraram parte das ações de um empresário que morrera mais de um ano antes, em abril de 2011. Novo documento obtido por ÉPOCA mostra que um mês depois de adquirir a pedreira, a família se associou ao empresário Walter Faria, o dono da Cervejaria Petrópolis, responsável pelas generosas contribuições na campanha de 2014.

    Na lista da revista Forbes, Walter Faria aparece como 11º homem mais rico do Brasil, dono de uma fortuna estimada em US$ 3,4 bilhões e poderoso investidor do ramo de bebidas. Em contraposição ao sucesso, o empresário tem um histórico de problemas com a Receita Federal e chegou a ser preso em 2005, acusado de sonegação fiscal. O dono da Itaipava entrou na sociedade da mineradora por meio de sua empresa, a GP Participações e Empreendimentos S.A., que comprou 20% da pedreira dos Picciani e de Carlos da Costa Pereira, o Carlinhos da Artsul, outro acionista. A família Picciani mantém suas ações em nome da Agrobilara Comércio e Participações.

    O patriarca Jorge Picciani não vê problemas em manter sociedade com um grande doador do PMDB. “Não há conflito com a esfera do interesse público. Eles [da cervejaria] jamais contribuíram para as minhas campanhas ou de meus filhos, nem direta nem indiretamente”, disse o deputado, referindo-se ao fato de o dinheiro ter sido repassado ao partido. “Meus mandatos na presidência da Assembleia são exercidos com absoluta transparência, e o diálogo com as empresas não ocorre de maneira individual”, afirmou, em nota.

    Por meio da assessoria de imprensa, os deputados Leonardo e Jorge Picciani disseram que não são sócios do empresário Walter Faria. "A empresa dele é, da mesma forma que a Agrobilara, acionista da Tamoio Mineradora, que é uma S.A. Pela lei das S.A.s, o fato de serem acionistas em uma mesma empresa não faz das pessoas sócias. Além disso, nenhum representante de Walter Faria ou da Agrobilara participa da diretoria executiva ou do conselho de administração. Logo, não interferem no dia a dia da empresa", diz a nota da assessoria. Sobre a compra das ações de "um morto", a assessoria acrescenta que "já foi esclarecido que se tratava de um equívoco cometido pelos vendedores da empresa quando transferiram ações correspondentes a 0,0000001% do negócio – um erro que, ao contrário do que a matéria sugeria, não nos beneficiava, mas, ao contrário, nos prejudicava – e que já foi sanado".

    Walter Faria entrou na sociedade depois que Picciani fez o negócio com o homem morto. A assessoria do Grupo Petrópolis afirma que “a GP Investimentos tomou conhecimento da situação a partir da reportagem”. “A empresa avaliará e verificará as informações e agirá de acordo com as orientações legais cabíveis.” O Grupo Petrópolis afirmou, também em nota, que “doou, de maneira legal e registrada na Justiça eleitoral, para diversos partidos políticos, candidatos e comitês regionais, em todo o Brasil”.

    No começo deste ano, ÉPOCA revelou que o Grupo Petrópolis, comandado por Faria, obteve um empréstimo de quase R$ 830 milhões em condições generosas do Banco do Nordeste. Duas semanas depois de selar a transação com o banco público, o grupo de Faria aportou os R$ 17,5 milhões na campanha de Dilma Rousseff. Dono da segunda maior cervejaria do país, o Grupo Petrópolis possui seis fábricas: duas na Região Serrana do Rio de Janeiro e as demais em São Paulo, Mato Grosso, Bahia e Pernambuco. As duas últimas foram construídas com o financiamento do Banco do Nordeste que é alvo de investigação do Ministério Público Federal.

    Walter Faria e a família Picciani mantém relações próximas. Picciani participou da festa de inauguração da fábrica na Bahia, e a Itaipava foi patrocinador de destaque do 13º Leilão Cidade Maravilhosa, de gado nelore, promovido pelo deputado. O evento, realizado em março em um hotel de luxo em Mangaratiba, Litoral Sul fluminense, teve transmissão ao vivo pelo Canal Rural. A marca da cervejaria estampava o microfone do leiloeiro no evento, que arrecadou R$ 3,6 milhões, com a venda de 63 lotes de animais de raça. Picciani também pega caronas no helicóptero do amigo no Rio. Mas suas relações societárias com Faria sempre foram desconhecidas, até de políticos mais próximos. O grupo Petrópolis informou que as decisões sobre patrocínios a eventos “são sempre tomadas em caráter técnico, visando ao fortalecimento das marcas”.

    A mineradora de Picciani e Walter Faria informa em seu site que fornece brita para obras das Olimpíadas. A mineradora não mantém contratos diretamente com a Prefeitura do Rio nem com o governo do Estado, ambos governados pelo PMDB, mas entrega o material a empreiteiras contratadas para obras públicas pelos dois entes. Faria entrou na sociedade em um momento de prosperidade, no fim de 2012. Com o país em crescimento e às vésperas da Copa do Mundo e das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro, a cidade era um canteiro de obras públicas de infraestrutura, e a construção civil prosperava.

    Desde a aquisição da Tamoio por Picciani, Carlinhos da Artsul e Walter Faria, a empresa recebeu enormes investimentos e multiplicou por cinco a produção. Em 2013, após a entrada de Walter Faria, teve início o ambicioso plano de investimentos, que envolveu a importação da Alemanha, por 10 milhões de euros, de uma sofisticada planta móvel de britagem e peneiramento, com capacidade de 900 toneladas por hora. A mineradora se louva, em seu site, da “maior planta móvel do planeta”.

    *A reportagem foi atualizada com resposta enviada pela assessoria de Picciani às 21h04.

    Fonte: Época

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