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    23 abril 2014

    Anchieta: O santo assassino

    Jesuíta José de Anchieta participou da canonização de índios no Brasil
    Anchieta, novo santo do Brasil, aceitava a matança de índios
    O Vaticano abriu exceção para o padre José de Anchieta (1534-1597), tornando-o santo, embora não haja comprovação de que ele tenha feito pelo menos dois milagres.
    Certamente pelo fato de o Brasil, o maior país católico do mundo, ter até então só dois santos, o Vaticano aceitou a alegação da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos Brasileiros) de que Anchieta já tem fama de santo por causa de sua “vida exemplar”.
    A Igreja Católica, obviamente, pode declarar “santo” quem quiser, trata-se de uma questão interna dessa religião, mas é preciso estar atento para que a interpretação católica não contamine a perspectiva histórica, rejeitando, por exemplo, essa lorota de que Anchieta teve “vida exemplar”.
    O espanhol Anchieta e um dos fundadores de São Paulo foi um erudito. Versado em idiomas, incluindo o tupi, ele escreveu o livro “A Arte da Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil”, o primeiro no gênero do país.

    A erudição de Anchieta, contudo, não o elevava para fora do seu tempo, para um futuro no qual os direitos humanos viriam a ser respeitado.
    Anchieta nunca criticou a matança de índios pelos colonizadores, mas ressaltou em um poema o quanto foram “cruéis” os tupinambás que atacavam os portugueses por não aceitarem a dominação estrangeira.
    Bartolomeu de Las Casas (1474-1566) teve a grandeza que faltou ao “exemplar” Anchieta. O frade dominicano e bispo de Chiapas (México) se notabilizou como defensor dos índios, denunciado na Europa os massacres dos quais eles eram vítimas.
    O poema onde Anchieta revela que retrato fazia dos índios se chama “Os Feitos de Mem de Sá” [administrador colonial do Brasil]. Com 3.058 versos decassílabos divididos em quatro cantos (ou livros), o poema foi escrito em latim para um público português e europeu.
    Em um dos versos o padre afirmou que os índios causaram muitas ruínas aos portugueses, como se estes não fossem os invasores das terras daqueles.
    Diz o verso:

    Ó que faustoso sai, Mem de Sá, aquele em que o Brasil

    te contemplou! quanto bem trarás a seus povos
    abandonados! com que terror fugirá a teus golpes
    o inimigo fero, que tantos horrores e tantas ruínas
    lançou nos cristãos, arrastado de furiosa loucura!
    A professora Ivânia dos Santos Neves, do Programa de Mestrado de Comunicação e Cultura da Universidade da Amazônia, escreveu um estudo mostrando que Anchieta e demais sacerdotes em missão no Brasil fechavam os olhos para a matança dos nativos porque equiparavam os índios aos negros, que, para a Igreja, não tinham alma.
    “Os religiosos se valeram das determinações papais que haviam resolvido a questão da igualdade social em relação às sociedades africanas, estas determinações estabeleciam que o “negro” não era considerado gente para a Igreja Católica”, diz o estudo.
    Isso explica, segundo a professora, o uso em textos jesuíticos do século XVI da palavra “negro” para se referir a “índio”.
    Ivânia Neves destacou que, no poema de enaltecimento a Mem de Sá, Anchieta se inspirou nas batalhas entre portugueses e os Tupinambá, que foram à luta em uma tentativa de garantir seu território.
    “Eles [os índios] lutaram para não se submeter, mas Anchieta condena esta luta”, escreveu a professora.
    Em outro verso, Anchieta disse:

    Vês como gentes cruéis em hordas imensas preparam

    aos cristãos batalhas ferozes. De morte humilhante
    ameaçam agora a cabeça dos pobres colonos
    quais tigre cruéis em redor da preia lanhada
    sorvendo com fauces sedentas o sangue inocente. 
    No livro III, Anchieta chegou a admitir que Mem de Sá fez uma “guerra cruel de extermínio”, mas o padre a justificou porque, entre outras coisas, os índios tinham o “hábito horrendo” de comer carne humana.

    Eis o verso:

    “O Governador ouviu com bondade essas palavras
    e respondeu: “Se vos fiz guerra cruel de extermínio,
    devastando os campos e lançando em vossas moradas
    o incêndio voraz, levou-me a isso vossa audácia somente.
    Já agora, esquecidos os ódios, vos concedemos contentes
    a aliança e a paz que quereis e sentimos vossa desgraça.
    Porém, deveis vós observar as leis que vos dito.”
    Manda então que refreiem suas rixas contínuas
    que expulsem do peito a crueldade e o hábito horrendo
    de saciarem o ventre, à maneira de feras raivosas,
    com carnes humanas. Também lhes ordena que guardem
    os mandamentos do Pai celeste e a lei natural

    e ergam igrejas ao eterno Senhor das alturas

    em seu torrão natal; aí serão instruídos
    na lei divina e de vontade abraçarão com os filhos
    a fé de Cristo, porta única do caminho do céu,
    Além disso, tudo quanto roubaram dos Cristãos às ocultas
    ou por assalto, em tantos anos, os próprios escravos
    mortos ou devorados, tudo pagarão e mais os tributos.”
    Para Anchieta, os índios que escaparam do extermínio e se converteram ao cristianismo se tornaram puros.
    No livro II, ele escreveu:

    Assim se expulsou a paixão de comer carne humana,

    a sede de sangue abandonou as fauces sedentas;
    e a raiz primeira e causa de todos os males,
    a obsessão de matar inimigos e tomar-lhes os nomes,
    para glória e triunfo do vencedor, foi desterrada.
    Aprendem agora a ser mansos e da mancha do crime
    afastam as mãos os que há pouco no sangue inimigo
    tripudiavam, esmagando nos dentes membros humanos.
    Há pouco a febre do impuro lhes devora as entranhas:
    imersos no lodaçal, aí rebolavam o fétido corpo,
    reso à torpeza de muitas, à maneira dos porcos.
    Agora escolhem uma, companheira fiel e eterna,
    vinculada pelo laço do matrimônio sagrado
    que lhe guarda sem mancha o pudor prometido. 
    Por isso, Anchieta virou santo e o apóstolo do Brasil.
    Extraído do site  www.paulopes.com.br em 06/04/2014
    Presb. Silvestre

    Por Milton Bitbull

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